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EDIÇÕES UVA 2000
Sobrevivência, Sofrimento e Dependência Química Lícita*
1 Eliany Nazaré Oliveira
O consumo de tranqüilizantes por mulheres usuárias do sistema público de saúde foi nosso objeto de estudo. Durantes a captação da realidade, encontramos fatores que integram a dimensão estrutural e que contribuem para a prática do consumo desordenado desta medicação, causando dependência física e psíquica, podendo ser classificada como dependência química lícita.
A mulher tornou-se o alvo mais fácil do poderoso complexo médico-hospitalar. É ela, quem utiliza com maior freqüência, o arsenal tecnológico disponível no sistema de saúde, em que se destacam os medicamentos. A assistência que privilegia o físico, o corpo, portanto biológica, deixa grandes lacunas no processo de atenção à saúde, principalmente à saúde mental que se ocupa da subjetividade, da individualidade, do sofrimento e das angustias.
Detectamos que as mulheres usuárias dos serviços públicos de saúde estão consumindo abusivamente tranqüilizantes. Na rede pública 75% das prescrições deste medicamento, são para mulheres. Mas o serviço de saúde não está preparado para atender esta demanda. Isso ficou evidente após a verificação de que havia indicação de uso do tranqüilizante, principalmente para situações de ordem econômica e social,o que não justificam a indicação; observamos também, a falta de registro em prontuário e da sistematização do acompanhamento médico às mulheres, neste caso o acompanhamento se restringia apenas à prescrição do medicamento, conduta incoerente para o manejo desses casos.
As mulheres do estudo estavam na faixa etária entre 45 e 60 anos, a maioria eram donas de casa ou trabalhavam fora do lar em atividades da economia informal, com prole grande, renda familiar e escolaridade muito baixa. Em seus relacionamentos conjugais, as mulheres demonstraram a existência da violência física e psicológica, revelando comportamentos de subservientes e alienados. A saúde era percebida como ausência de doenças.
Essas mulheres não têm dimensão da pratica que vêm desenvolvendo, ao consumirem abusivamente o tranqüilizante. Encontram apenas um bem-estar momentâneo, os problemas que originaram o uso não são resolvidos. A dor da fome, o desemprego do marido, a falta de perspectivas misturam-se com a ansiedade, com a preocupação e insegurança. Estão consumindo o tranqüilizante para suportarem essas preocupações do dia-a-dia.
O processo saúde-doença mental em que estão envolvidas, demonstrou o modo de reapropriação, que expressam as tentativas de entender, superar, evitar ou tomar suportáveis sofrimentos psíquicos oriundos do antagonismo subjetividade/objetividade, são explicitados pelo uso indiscriminado do tranqüilizante. Essa prática aproxima essas mulheres do pólo doença mental.
A prescrição do tranqüilizante para mulheres no setor público de saúde é um prática que necessita ser revista e investigada, pois algumas mulheres estão utilizando o medicamento principalmente como suporte para enfrentar um cotidiano pleno de privações. O serviço e os profissionais não conseguem resolver a contento os problemas trazidos por essas usuárias, que são essencialmente sociais. A indicação e consumo pouco criterioso deste medicamento podem ser considerados uma prática que afeta a saúde mental de quem utiliza. Ficou demonstrado que estas usuárias estão predispostas à dependência, caracterizando-se como uma verdadeira conduta iatrogenica , onde mulheres ao contrario do que se esperava, deveriam ser tratadas e cuidadas pelo profissionais e serviços de saúde, e o que encontram é a possibilidade de ingressarem na dependência química lícita.
* Dissertação de Mestrado/ Publicada em forma de Livro (2000)
1Enfermeira, Docente do Curso de Enfermagem da Universidade Estadual Vale do Acaráu – UVA, Doutoranda em Enfermagem pela UFC e Membro do Conselho de Direitos da Mulher de Sobral.
Email : elianyy@hotmail.com
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